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    November 07

    O DIÁLOGO DAS ALMAS II

    A CONDIÇÃO DA ALMA

    A alma foi enlaçada pelo diabo com pensamentos como este e similares, como que atada com fortes cadeias, e como mais uma vez foi levada aos caprichos da carne e aos desejos terrenos, e já não sabia o que fazer, tornou a olhar um pouco para o mundo e seus prazeres, mas ainda sentia fome da graça divina e desejava entrar no arrependimento e chegar ao favor de Deus. Havia sido tocada e acariciada pela mão de Deus e portanto, não podia encontrar repouso em parte alguma senão n’Ele. Não cessava de suspirar, lamentando os pecados que havia cometido e, se pudesse, de bom grado se desfaria deles. Não podia, contudo, alcançar um verdadeiro arrependimento, menos ainda o conhecimento do pecado, embora tivesse uma fome poderosa e um ardente desejo de tal penitência.

    Estando abatida e triste e não encontrando remédio ou repouso, a alma começou a buscar um lugar adequado para empreender um verdadeiro arrependimento, um lugar em que pudesse estar livre dos assuntos, preocupações e tormentos do mundo. Por isso, buscou um lugar ermo e solitário e abandonou todos os assuntos mundanos e todas as coisas temporais. Procurando também um modo de obter o favor de Deus, acreditando que, sendo bondosa e compassiva para com os pobres, obteria a misericórdia de Deus. Concebeu, assim, todo tipo de maneiras para alcançar o repouso e o amor, o favor e a graça de Deus.

    Porém, nada do que fazia surtia efeito, pois seus assuntos mundanos ainda a acompanhavam na concupiscência da carne; estava agora, tanto quanto antes, aprisionada na rede do diabo, e não podia alcançar o repouso. Ainda que por um momento seguinte estava novamente triste e abatida, pois sentia a cólera de Deus despertar dentro de si, mas não sabia por quê. Muitas vezes, uma grande angústia e tentação caíram sobre ela, tornando-a desassossegada, doente e desfalecida de terror.

    Tudo isso devido à grande intensidade com que a alma foi tocada pelo raio da primeira influência da graça. Ela não sabia que Cristo estava na cólera e na severa justiça de Deus, lutando em seu corpo e sua alma contra Satanás, o espírito do erro, que se incorporara a eles. Não compreendia que a fome e o desejo de arrependimento provinham do próprio Cristo, por quem era atraída. Tampouco sabia o que a impedia de alcançar e sentir a presença de Deus. Não entendia que ela mesma era um monstro que carregava a imagem da serpente, a quem o diabo tinha acesso e sobre a qual tinha poder, a quem tinha confundido e minado em todos seus bons desejos, pensamentos e movimentos, afastando-os de Deus e da bondade.

    Sobre isto, Cristo disse: “O diabo arrebata a palavra de seus corações, para que não creiam e não sejam salvos” (Luc. 8:12).

     

    UMA ALMA ILUMINADA E REGENERADA ENCONTRA-SE COM A ALMA ATORMENTADA

    Pela providência divina, uma alma iluminada e regenerada encontrou-se com essa pobre alma aflita e atormentada, e disse-lhe: “O que te aflige? Por que estás tão intranqüila e preocupada?” A alma atormentada respondeu: “O Criador ocultou de mim a Sua Face, e não repouso. Por isso estou aflita e não sei o que fazer para interpõem-se entre mim e sua graça, de modo que não posso alcançá-lo.

    Por mais que eu suspire por Ele e por mais que O deseje, não posso participar de seu poder, virtude e fortaleza”.

    A alma iluminada disse: “Sabe que carregas a monstruosa imagem do diabo e estás dela revestida. Uma vez que essa imagem participa da mesma propriedade ou princípio que o diabo, ele tem acesso a ti e impede que tua vontade se volte para Deus. Pois, se tua vontade estivesse em Deus, seria ungida com seu mais alto poder e fortaleza, na ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Essa unção despedaçaria o monstro que levas contigo, e tua primeira imagem paradisíaca reviveria em ti. Serias de novo um anjo. O diabo não deseja que chegues a isto, e mantém-te presa em tuas próprias concupiscências carnais. Se não te libertares, estarás separada de Deus e nunca poderás entrar em nossa sociedade”.

    Ante essas revelações, a pobre alma aterrorizou-se e não pôde dizer nem mais uma palavra. Soube que adquira a forma da serpente, que a separava de Deus, e que nessa condição o diabo estava muito perto e tinha grande poder sobre ela, e que confundia sua vontade com pensamentos falsos. Entendeu que estava perto da condenação e fortemente presa ao abismo sem fundo do inferno, aprisionada na cólera de Deus, e teria desesperado da misericórdia divina.

    Porém, o poder, a virtude e a fortaleza do primeiro movimento da graça de Deus que a acariciara, sustentaram-na e impediram-na de cair no desespero total. Todavia, lutava dentro de si mesma entre a esperança e a dúvida. Qualquer esperança que se erguia, a dúvida tornava a derrubar. A alma caíra numa intranqüilidade tão contínua que, por fim, o mundo e toda sua glória tornaram-se repulsivos para ela. Não mais desejava gozar os prazeres mundanos. No entanto, apesar de tudo, não conseguia chegar ao repouso.

    Algum tempo depois, a alma iluminada aproximou-se novamente desta alma e, encontrado-a tão angustiada e preocupada como antes, disse-lhe: “O que fazes? Porventura desejas destruir-te com tua angústia e tua lamentação? Por que te atormentas com o teu próprio poder e vontade? Não és senão um verme, e com o que estás fazendo só podes aumentar teu tormento. Ainda que submergisses até o fundo do mar, ou pudesses voar mais distantes fulgores da aurora, ou elevar-te acima das estrelas, não poderias libertar-te. Quando mais afligires, atormentares e preocupares, mais dolorosa será a tua natureza, e não serás capaz de chegar ao repouso. Perdeste teu poder! Como um pau seco que ardeu até converter-se em carvão não pode, por seu próprio poder, tornar-se verde, nem ter seiva para florescer como as outras árvores e as outras plantas, assim também não podes, por teu próprio poder e fortaleza, alcançar a morada de Deus, nem converter-te na forma angélica que tiveste no início. Estás murcha e seca para Deus, como uma planta morta que perdeu sua seiva e sua vitalidade. Tuas propriedades são como o calor e o frio, que lutam continuamente sem jamais poderem unir-se”.

    A alma angustiada disse: “O que, então, deverei fazer para tomar a brotar e receber minha vida primordial, na qual estava em repouso antes de converter-me nessa imagem nefasta?” A alma iluminada disse: “Nada tens de fazer salvo abandonar tua vontade própria, isto é, aquilo que chamas “eu”. Desse modo, todas as tuas propriedades malignas se enfraquecerão e começarão a morrer; então mergulharás tua vontade própria na Unidade da qual provieste. Estás cativa das criaturas (propriedades malignas) que habitam a ti e ao mundo, mas se tua vontade as abandona, as criaturas que com suas más inclinações te impedem de chegar a Deus morrerão em ti.

    Se seguires o caminho que te indico, teu Deus te enviará seu infinito amor, por Ele revelado para a humanidade em Jesus Cristo. Ele te dará seiva, vida e vigor, de modo que poderás brotar e florescer novamente, e regozijar-te no Deus vivente como um ramo que cresce em sua verdadeira. Assim recobrarás a imagem de Deus, e te libertarás da imagem e condição da serpente. Então serás meu irmão e companheiro dos anjos”.

    A pobre alma disse: “Como poderia abandonar minha vontade, para que as criaturas que nela habitam venham a morrer, considerando que tenho de estar no mundo e dele necessito enquanto viver?” A alma iluminada disse: “Agora tens poderes e riquezas mundanas, que possuas como próprias, fazendo com isso o que bem queiras, não levando em conta o modo pelo qual as obtiveste, nem como as utiliza, empregando-as apenas para a satisfação de teus desejos vãos e carnais. Embora vejas a miséria dos pobres e desgraçados, que requerem tua ajuda e são teus irmãos, não apenas lhe nega ajuda, mas impõe-lhes pesadas cargas, exigindo deles mais do que suas capacidades, fazendo que despendam seu labor e seu suor para ti e para a gratificação de tua vontade voluptuosa. Além disso, és orgulhoso e os insultas, e te comportas rude e insolentemente para com eles, exaltando-te acima deles e considerando-os insignificantes diante de ti.

    Então, esses teus irmãos pobres e oprimidos lamentam-se a Deus, pois não podem colher o benefício de seu próprio labor e fadigas, sendo forçados por ti a viver na miséria. E, com tais suspiros e lamentos atiçam em ti a cólera de Deus, aumentando as chamas de teu tormento e de tua intranqüilidade.

    Estas são as criaturas (propriedades) de que estás enamorado, tendo-te separado de Deus por elas e dirigindo teu amor apenas a elas. Assim essas criaturas vivem no teu amor; tu as alimenta com teu desejo e as acolhe em tua mente, pela concupiscência de tua vida. Elas são uma progênie suja, asquerosa e malvada, nascida da natureza bestial, que ao serem recebidas em tua mente e teu desejo, ganham forma e imagem em ti.

    Essa imagem é uma besta de quatro cabeças: a primeira é o orgulho; a segunda, a avareza; a terceira, a inveja; a quarta, a ira. Estas quatro propriedades constituem os pilares do inferno. Carrega-as contigo, estão impressas e gravadas em ti e a teu redor, estás totalmente cativa delas. Essas propriedades vivem em tua vida natural e, por isso, separada de Deus; não poderás aproximar-te d’Ele enquanto não abandonares estas criaturas (propriedades) más, para que morram em ti.

    Desejas que eu te diga como abandonar a vontade próxima e perversa, de modo que tais criaturas venham a morrer, ainda que sigas vivendo no mundo. Posso assegurar-te que só há um caminho para isso, um caminho estreito e reto. No início, te serás muito difícil e irritante trilhá-lo; porém, mais tarde, caminharás por ele jubilosamente.

    Deves considerar seriamente que, no curso desta vida mundana, caminhas na cólera de Deus e nos fundamentos do inferno, e que este não é tua verdadeira terra natal. Um cristão deve viver em Cristo, seguindo-o em seu caminhar, e não pode ser um cristão a não ser que o espírito de Cristo viva nele e que esteja plenamente submetido a ele. Uma vez que o reino de Cristo não é deste mundo, mas do Céu, se embora teu corpo necessite viver e habitar entre as criaturas.

    O caminho estreito da perpétua ascensão aos céus e da imitação de Cristo é este: deves desesperar de todo teu próprio poder e fortaleza, pois através dele não podes alcançar os portais de Deus. Deves decidir-te firmemente a entregar-te por completo à misericórdia de Deus. Deves submergir-te com toda tua mente e razão na paixão e morte de nosso Senhor Jesus Cristo, desejando sempre preservar nele e morrer para todas as criaturas.

    Deves também vigiar tua mente, teus pensamentos e inclinações, para que não deves permitir que a honra ou o proveito temporal te seduzam. Deves ter a intenção de afastar de ti toda falta de retidão e tudo o que possa obstruir a liberdade de teu movimento e progresso. Tua vontade deve ser inteiramente pura e fixar-se na firme resolução de nunca retornar aos velhos ídolos, mas abandoná-los e separar tua mente deles e da justiça, seguindo a doutrina de Cristo.

    Assim como te propões a abandonar os inimigos em tua própria natureza interior, deves também perdoar a todos os teus inimigos exteriores, dispondo-te a encontrá-los com o teu amor, para que assim não possa restar criatura, pessoa ou coisa capaz de capturar tua vontade, e ela seja purificada de todas as criaturas.

    Digo mais, se preciso for, deverias estar satisfeita e pronta a abandonar, por Cristo, todas as honras e bens materiais. Não dês importância a nada que seja terreno, para que teu coração e teus afetos não se estabeleçam ali. Qualquer que seja teu estado, grau ou condição quanto a classe mundana das riquezas, considera-te como um servo de Deus e teus companheiros, os cristãos, ou como um serviçal de Deus no ofício em que Ele te estabeleceu. Toda arrogância e auto-exaltação deve ser humilhada, diminuída e aniquilada, de tal modo que nada de teu, ou de qualquer outra criatura, possa estabelecer-se em tua vontade, para que teus pensamentos e tua imaginação não se estabeleçam ali.

    Além disso, deves gravar em tua mente que, pelo mérito de Jesus Cristo, alcançarás a graça prometida e participarás de seu transbordante amor. Em verdade, Cristo já vive em ti, iluminando tua vontade e inflamando-a com a chama de seu amor. Ele te libertará de tuas criaturas e te dará a vitória sobre o diabo.

    Nada podes fazer por teu próprio poder. Podes apenas entrar no sofrimento e na ressurreição de Cristo, Tomando-os para ti. Com isso, o reino do diabo, estabelecido em ti, sofrerá violentos ataques e será feito em pedaços, e tuas criaturas (propriedades) morrerão. Deves decidir-te entrar neste caminho, neste mesmo instante, e nunca mais afastar-te dele, submetendo-te de bondade a Deus em todos os teus projetos e atos, para que Ele possa fazer contigo o que quiser.

    Quando esta for tua vontade e tiveres tomando tais resoluções, terás atravessado a barreira de tuas próprias criaturas e estarás apenas na presença de Deus, revestida dos méritos de Jesus Cristo. Poderás, então, como o filho pródigo, ir livremente ao Pai e prosternar-te ante Sua face em arrependimento.

    Emprega toda tua força nesta obra, confessando teus pecados e tua desobediência, e não com palavras vazias, mas arrependendo-te com todo teu ser. Entretanto, tudo isto não será mais que um propósito e a uma resolução firme, pois a alma não tem como fazer nenhuma boa obra por si mesma.

    Quando estiveres nessa disposição, teu Pai celeste, vendo-te retornar com arrependimento e humildade, falará contigo internamente, dizendo: “Este é meu filho que Eu havia perdido. Estava morto e reviveu” (Luc. 15:24). E irá encontrar-te em tua mente e, por meio da graça e do amor de Jesus Cristo, te abraçará com os raios de seu amor e te beijarás com Seu Espírito e poder. Então receberás a graça de verter tua confissão diante d’Ele e de orar poderosamente.

    Esse é, em verdade, o momento e o lugar correto do combate, isto é, diante da Luz de Sua Face. Se te manténs firme, se não te desvias, verás e sentirás grandes maravilhas. Descobrirás Cristo combatendo o inferno dentro de ti, fazendo em pedaços as tuas bestas, e fazendo surgir em ti um grande tumulto e uma grande miséria. Teus pecados secretos serão os primeiros a despertar, e tentarão separar-te de Deus. Verás e sentirás, então, como a morte e a vida lutam uma com a outra, e pelo que se passa em ti, entenderás o que são o céu e o inferno.

    Mas não te movas por isso; mantém-te firme e não te desvies. Por fim, todas as criaturas (más inclinações) se tornarão fracas e começarão a morrer, e tua vontade se tornará cada vez mais forte e capaz de submetê-las. Então, gradualmente, tua vontade e tua mente nova ascenderão ao céu, e tuas criaturas perecerão. Obterás uma mente nova e, despojando-te da deformidade bestial e recobrando a imagem divina, começarás a ser uma nova criatura. Assim te liberarás de tua presente angústia e chegarás novamente ao repouso”.

     

    A PRÁTICA DA POBRE ALMA

    Então, tendo a pobre alma começado a participar [d]este caminho com diligência, acreditou que obteria a vitória rapidamente. Mas encontrou as portas do céu fechadas para sua habilidade e poder. Foi como se tivesse sido rechaçada e abandonada por Deus, sem nenhum vislumbre da Graça. Então, a alma disse a si mesma: “De certo não te entregaste por completo a Deus. Nada deves desejar d’Ele, apenas submeter-te a seu juízo, para que Ele possa matar tuas más inclinações. Lança-te n’Ele para além dos limites da natureza e da criatura, e submete-te a ele de tal modo que Ele possa fazer contigo o que bem quiser, pois não és digna de falar com Ele”. Assim, a alma tomou a resolução de lançar-se n’Ele e abandonar por completo sua vontade própria.

    Tendo feito isso, caiu sobre ela o maior arrependimento possível pelos pecados que cometera, e deplorou amargamente a fealdade de sua forma. Lamentou-se verdadeira e profundamente que as más criaturas a habitassem. Em seu pesar, não pôde falar uma só palavra na presença de Deus; em seu arrependimento, recordou apenas a amarga paixão e morte de Jesus Cristo: quão grande angústia e tormento havia sofrido por sua causa, para livrá-la de sua angústia e convertê-la novamente na imagem de Deus. Lançou-se inteiramente nessa recordação, não fazendo outra coisa senão lastimar sua ignorância e negligência, por ter sido ingrata para com seu Redentor, jamais tendo considerado o grande amor que ele mostrou por ela, tendo passado o tempo ociosamente, sem jamais pensar como poderia participar de sua Graça. Com as vãs concupiscências e prazeres do mundo, havia formado em si imagens e figuras das coisas terrenas; havia obtido inclinações tão bestiais que agora deveria viver presa numa grande miséria, sem atrever-se, por vergonha, a erguer os olhos a Deus, enquanto Ele ocultava-lhe a luz de Sua Face, não querendo olhá-la.

    Encontrando-se imersa em tais gemidos e lágrimas, foi atraída para o abismo do horror, como se estivesse perante as portas do inferno para perecer. A pobre alma, extenuada e completamente desorientada, esqueceu-se de todos seus atos e queria entregar-se à morte e deixar de ser uma criatura.

    Com isso, entregou-se à morte, desejando apenas morrer na morte do seu Redentor, Jesus Cristo, que sofrera tão grandes tormentos por ela. Contudo, nessa agonia, começou a suspirar interiormente e a clamar pela bondade divina e a lançar-se na mais pura misericórdia de Deus.

    Quando isso ocorreu, à amável face do amor de Deus subitamente apareceu e penetrou-a com uma grande luz, lançou então a orar de maneira correta e a agradecer pela graça do altíssimo, regozijando-se imensamente por ter sido libertada da morte e da angústia do inferno.

    Provou a doçura de Deus e a Sua Verdade prometida; com isso, todos os espíritos maus que antes a haviam fustigado, apartando-a da graça do amor e da Presença Inferior de Deus, foram obrigados a dela separar-se. Então, solenemente, o “matrimônio do Cordeiro” teve lugar: a nobre SOPHIA desposou a alma e o selo do anel da vitória de Cristo imprimiu-se em sua essência, e ela foi recebida novamente como filho e herdeiro de Deus.

    Quando isto ocorreu, a alma tornou-se muito feliz e começou a operar nesse novo poder, celebrando com louvores as maravilhas de Deus, pensando que, dali em diante, caminharia continuamente sob a mesma Luz, poder e gozo. Porém, foi logo assaltada – exteriormente, pelo escárnio e reprovação do mundo e, interiormente, por uma grande tentação, de modo que começou ter a dúvidas quanto ao fato de seu fundamento estar realmente em Deus e se havia participado de Sua Graça.

    Assim, Satanás, o Acusador, aproximou-se e quis desviar a alma de seu caminho, levando-a a duvidar do caminho verdadeiro, sussurrando-lhe interiormente: “Essa feliz mudança em teu espírito não provém de Deus, mas apenas de tua própria imaginação”.

    Além disso, a Luz divina retirou-se, brilhando apenas no plano interior da alma – como numa fogueira, quando a lenha em chamas é retirada, restando apenas o fogo interior das brasas –, de modo que [pela] razão sentia-se perplexa e abandonada. A alma não sabia por que isso estava ocorrendo, nem se de fato havia experimentado a divina luz da Graça. Contudo, não podia deixar de lutar.

    Pois o ardente Fogo do Amor fora semeado nela, gerando uma fome veemente e contínua da doçura divina. Por fim, começou a orar de maneira correta, humilhando-se perante Deus, examinando e testando suas más inclinações e pensamentos, e lançando-os fora de si.

    Desse modo, a vontade da razão foi quebrada e as más inclinações inerentes a elas foram gradativamente aniquiladas e extirpadas. Esse processo foi muito severo e doloroso para a natureza do corpo, tornando-o débil e enfermo. Contudo, não era uma enfermidade natural, mas a melancolia de sua natureza terrena sentindo e lamentando a destruição de suas concupiscências.

    Pois bem, quando a razão terrena encontrou-se em tal abandono e a pobre alma viu que, exteriormente, era desprezada e ridicularizada pelo mundo, pois já não podia trilhar o caminho da perversão e da vaidade, e também que, interiormente, era assaltada pelo Acusador, Satanás, que a escarnecia, oferecendo-lhe a todo momento as belezas, as riquezas e a glória do mundo, e chamando-a de estúpida por não correr para abraçá-las, a alma começou a pensar e dizer: “Ó Deus eterno! O que farei agora para chegar ao repouso?"

     

    A ALMA ILUMINADA ENCONTRA-SE NOVAMENTE COM A ALMA ATORMENTADA

    Em meio a tais pensamentos, a alma Iluminada encontrou-se mais uma vez com a alma atormentada, e disse-lhe: “O que te afliges, meu irmão, e te põe em tal abatimento e tristeza?” A pobre alma respondeu: “Segui teu conselho e obtive um raio da doçura divina; mas novamente, ela afastou-se de mim e agora encontro-me abandonada e sob grandes provações e aflições no mundo, pois todos meus bons amigos abandonaram-me e escarnecem de mim. Interiormente, sou acometida pela angústia e pela dúvida, e não sei o que fazer”.

    A alma iluminada disse: “O que dizes traz-me muita alegria, pois nosso amado Senhor Jesus Cristo está percorrendo contigo e em ti o caminho que mesmo trilhou neste mundo. Também ele foi desprezado e alvo de maledicências, e nada possui que lhe fosse próprio. Agora carregas sua marca. Não te assombres com isso, nem o estranhes, pois assim deve ser para que possas ser provada, refinada e purificada.

    Em tal angústia e inquietude, terás muitas vezes motivo para ter fome da redenção e para clamar por ela; por meio de tal fome e tal clamor, atrairás a graça para ti, inferior e exteriormente.

    Pois, para recuperar a imagem de Deus, deves crescer tanto a partir de baixo como a partir do alto, como uma jovem planta que, agitada pelo vento, suportando o frio e o calor, deve manter-se atraindo força e virtude tanto do alto como de baixo, e resistir a mais de uma tempestade, antes, antes de converter-se numa árvore e dar frutos. Pois, através de tal agitação, a virtude do Sol move-se na planta, as suas propriedades selvagens são penetradas e tingidas pela virtude solar, e com isso, a árvore cresce.

    Neste momento, deves agir como um valente soldado do Espírito de Cristo e cooperar com ele. Pois o Pai eterno, por Seu poder ígneo, engendra em ti o Seu Filho, e este Filho transmuta o Fogo do Pai (o Primeiro Princípio, a propriedade colérica da alma) em Chama de Amor (o Segundo Princípio, a doce Luz divina), de modo que do fogo e da Luz (da Ira e do Amor) advém uma substância una, que é o verdadeiro templo de Deus.

    Agora, tu brotarás nas vinhas de Cristo, na videira de Cristo, e darás frutos em tua vida, ajudando e instruindo os outros e, como uma boa árvore, mostrando teu amor em abundância. Pois o Paraíso deve, através da cólera de Deus, brotar novamente em ti e converter o inferno em céu.

    Portanto, não acovardes antes as tentações do diabo, pois ele luta pelo reino que um dia teve em ti; mas, tendo-o perdido, foi humilhado e está obrigado a afastar-se de ti. E se ele te cobre exteriormente com a humilhação e a reprovação do mundo, é para encobrir a própria vergonha e para que tu permaneças oculto para o mundo.

    Pois, com teu novo nascimento ou natureza regenerada, estás no céu e na harmonia divina. Por isso, sê paciente e espera no Senhor. O que quer que te ocorra, recebe-o como proveniente de Suas mãos para o teu mais alto bem”.

    Dizendo isto, a alma Iluminada se afastou.

     

     

    O CAMINHO DA ALMA

    Agora, essa alma começou a caminhar sob o paciente sofrimento de Cristo e, dependendo apenas do poder de Deus, entrou na esperança. Desde então, tornou-se mais forte a cada dia, e suas más inclinações pereceram gradualmente; por fim, chegou a um elevado grau da Graça, as portas da revelação divina foram-lhe abertas e o reino dos céus manifestou-se nela.

    Assim, através do arrependimento, da fé e da oração, a alma retornou a seu verdadeiro repouso original e converteu-se num reto e amado filho de Deus. Que Sua infinita misericórdia nos ajude a todos a conseguir o mesmo. Amém.

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