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    November 07

    O DIÁLOGO DAS ALMAS I

    DIÁLOGO ENTRE UMA ALMA ILUMINADA E OUTRA EM BUSCA DA ILUMINAÇÃO

    Jacob Boheme

     

    Como uma alma iluminada deve buscar outra e consolá-la, levando-a, por seu conhecimento, às sendas da peregrinação de cristo, advertindo-a lealmente do espinhoso caminho do mundo, no qual caminha a alma caída, que conduz ao abismo ou fossa do inferno.

     

    Era uma pobre alma que viajou para fora do Paraíso, ao reino deste mundo, onde o diabo a encontrou e lhe perguntou: “Aonde vais, ó alma meio cega?” A alma respondeu: “Quero ver as criaturas do mundo, feitas pelo Criador e conhecê-las.” O diabo disse: “Como desejas vê-las e conhecê-las se não podes compreender sua essência e peculiaridade (propriedade)? Contemplarás apenas seu exterior, como a uma pintura, não podendo conhecê-las inteiramente”.

    A ALMA: “Como posso conhecer sua essência e peculiaridade?”

    O DIABO: “Se comeres do fruto pelo qual as próprias criaturas vieram a ser boas e más, teus olhos se abrirão para vê-las plenamente. Então serás como o próprio Deus e saberás o que é a criatura”.

    A ALMA: “Sou uma criatura nobre e santa, mas o Criador advertiu-me que se fizer o que me sugeres morrerei”.

    O DIABO: “Não, absolutamente! Mas teus olhos se abrirão, e serás, como Deus, conhecedor do bem e do mal. Serás também poderosa e grandiosa como eu, e todas as sutilezas das criaturas te serão conhecidas”.

    A ALMA: “Se eu tivesse o conhecimento da natureza e das criaturas, poderia governar o mundo”.

    O DIABO: “Todo o fundamento desse conhecimento reside em ti mesma. Simplesmente faz com que tua vontade e teu desejo desviem-se de Deus e da bondade, e voltarem-se para a natureza e as criaturas; então, surgirá em ti o desejo de provar tais coisas. Assim, poderás comer da árvore da ciência do bem e do mal, e com isso chegarás a conhecer todas as coisas”.

    A ALMA: “Bem, então comerei da árvore da ciência do bem e do mal, para poder governar todas as coisas por meu próprio poder, sendo meu próprio senhor na Terra e, como Deus, fazer o que quiser”.

    O DIABO: “Sou o príncipe deste mundo. Se desejas governar a Terra, deves dirigir teus desejos á minha imagem, desejar ser como eu, para que possas obter a astúcia, a engenhosidade, a razão e a sutileza de minha imagem”.

    O diabo, então, apresentou à alma o Vulcano (Vulcanus) do Mercúrio: o poder que se encontra na raiz ígnea da criatura, a roda ígnea da essência, ou substância, na forma de uma serpente.

    Ante essa visão, disse [A ALMA]: “Este é o poder de todas as coisas. O que devo fazer para obtê-lo?”

    O DIABO: “Tu mesma és esse Mercúrio (Mercurius) ígneo. Se separas tua vontade de Deus e a introduz nesse poder, teu próprio fundamento oculto se manifestará em ti, e poderás obter o que desejas.

    Porém, deves comer desse fruto, no qual cada um dos quatro elementos governa sobre o outro estando em contínua luta, como o frio contra o calor e o calor contra o frio. Então, instantaneamente, serás como a roda ígnea, conduzindo todas as coisas sob teu próprio poder e possuindo-as como próprias”.

    Assim fez a alma, e eis o que sucedeu: Quando a alma separou sua vontade de Deus e a introduziu no Vulcano do Mercúrio – a vontade ígnea, a raiz da vida e do poder –, surgiu nela um desejo de comer frutos da árvore da ciência do bem e do mal.

    Ela tomou o fruto e o comeu.

    Assim que o fez, Vulcano (O artífice do Fogo) acendeu a roda ígnea de sua essência, e então as propriedades da Natureza despertaram na alma, e cada uma exerceu sua própria concupiscência e desejo.

    Primeiro surgiu a cobiça do orgulho: um desejo de ser grande e poderoso, de ter todas as submetidas a si, de ser senhor absoluto, desprezando toda humildade e igualdade, estimando-se o único prudente, astuto e engenhoso, e tomando por estúpido todos que não estivessem de acordo com seu próprio humor e predisposição.

    Em segundo lugar, surgiu a cobiça da avareza: um desejo de obter todas as coisas, de atraí-las para si, para sua posse. Pois, quando a cobiça do orgulho separou de Deus a vontade da alma, a vida desta não mais confiou em Deus e quis cuidar de si mesma, e, portanto, dirigiu seu desejo para as criaturas, para a Terra, os metais, as árvore e outras criaturas.

    Foi assim que, depois de separar-se da unidade, do amor e da doçura divinas, a vida ígnea da alma tornou-se faminta e avarenta, e atraiu para si os quatro elementos e sua essência, chegando à condição das bestas. Foi assim que a vida tornou-se escura, vazia e colérica, e as virtudes e cores celestes desapareceram, como uma vela que se extinguiu.

    Em terceiro lugar, na vida ígnea da alma, surgiu a espinhosa e hostil cobiça da inveja: um veneno infernal. Uma propriedade que todos os diabos têm, e um tormento que faz da vida uma mera inimizade para com Deus e para com todas as criaturas. Esta inveja manifestou-se furiosamente na concupiscência da avareza, como uma picada venenosa, pois a inveja não pode suportar que a avareza não atraia o que deseja para si, e possa a odiá-lo e busca destruí-lo. E por causa dessa paixão infernal o nobre amor da alma se asfixia.

    Em quarto lugar, na vida ígnea da alma, surgiu um tormento semelhante ao fogo: a ira, o desejo de matar e afastar do caminho todos os que não se submetem a seu orgulho.

    Deste modo, nessa alma, manifestou-se plenamente o inferno e seu fundamento, a Cólera de Deus.

    Assim a alma perdeu o belo Paraíso de Deus e o reino dos Céus, e converteu-se num verme, semelhante á serpente ígnea que o diabo lhe havia apresentado, tornando-se sua imagem e semelhança.

    Com isso, a alma começou a governar o mundo de um modo bestial, fazendo todas as coisas conforme a vontade do diabo, vivendo meramente no orgulho, na avareza, na inveja e na ira. Já não há nenhum amor verdadeiro por Deus tendo surgido em seu lugar um amor bestial, malvado e sujo pela libertinagem, pela lascívia e pela vaidade, não restando pureza alguma em seu coração, pois a alma abandona o Paraíso e tomara a Terra em sua posse. Sua mente estava inclinada apenas às aparências, à astúcia, à sutileza, e a uma multidão de coisas mundanas. Nela já não restava retidão ou virtude alguma.

    Qualquer mal ou erro cometido, era encoberto com muita astúcia e sutileza sob o manto de seu poder e de sua autoridade, por meio da lei, em nome do direito e da justiça, sendo tomados por bons.

     

    O DIABO APROXIMA-SE DA ALMA

    Depois disso, o diabo aproximou-se da alma e conduziu-a de um vício a outro, pois ele aprisionara em sua essência. Colocando-o ante ela gozo e prazer, disse-lhe: “Vê, agora és poderosa e nobre. Trata de ser maior, mais rica e mais poderosa ainda. Emprega teu conhecimento, astúcia e sutileza para que todos te temam e respeitem, possa adquirir um grande nome neste mundo”.

    A alma fez o que o diabo lhe havia aconselhado, mas sem saber que seu conselheiro era O DIABO: acreditou que era guiada por seu próprio conhecimento, astúcia e compreensão, e que fazia tudo bem e corretamente.

     

    JESUS CRISTO ENCONTRA-SE COM A ALMA

    Seguia a alma por tal curso de vida, quando nosso querido e amado Jesus Cristo a encontrou. Ele, que veio a este mundo com o Amor e a Cólera de Deus para destruir as obras do diabo e executar o julgamento de todos os atos perversos, falou dentro dela por meio de um forte poder e sua paixão e morte e destruiu as obras do diabo, desvelando-lhe o caminho de sua graça, brilhando sobre ela com sua misericórdia. Chamou-a ao arrependimento e ao retorno, e prometeu libertá-la da imagem monstruosa e disforme na qual tinha se convertido e reconduzi-la ao Paraíso.

     

    COMO CRISTO AGIU NA ALMA

    Quando a centelha do amor de Deus, luz divina, manifestou-se na alma, ela viu num instante que, por sua vontade e sua obras, estava no inferno e que se havia convertido num monstro feio e disforme ante a presença divina e o reino dos céus. Ficou tão aterrorizada que sofreu a maior das angústias, pois o juízo de Deus manifestava-se nela.

    O Senhor Jesus Cristo falou à alma com luz de sua graça: “Arrepende-te e abandona a vaidade!, e alcançarás minha graça”.

    Então em sua disforme e feia imagem e sob o sujo manto da vaidade, a alma aproximou-se de Deus e pediu a graça e o perdão de seus pecados. Acreditou que a satisfação em nosso perdão de seus pecados.

    Acreditou que a satisfação em nosso Senhor Jesus Cristo e sua redenção através dele lhe correspondiam.

    Contudo, as más propriedades da serpente, o orgulho, a avareza, a inveja e a ira, formadas no espírito astral, a razão do homem exterior, não [quisera que] se aproximasse de Deus, e [suas] inclinações. Pois essas más propriedades não queriam morrer para seus próprios desejos, nem abandonar o mundo, pois eram provenientes do mundo e, conseqüentemente, temiam sua reprovação caso abandonassem a honra e a glória mundanas.

    Contudo, a pobre alma voltou sua face para Deus e desejou sua graça e seu amor.

     

    O DIABO APROXIMA-SE NOVAMENTE DA ALMA

    Porém, quando o diabo viu que a alma orava a Deus e queria entregar-se ao arrependimento, aproximou-se e reacendeu as más inclinações e propriedades terrenas dentro de suas orações, perturbando seus bons pensamentos e os bons desejos dirigidos a Deus, desviando-os novamente para as coisas terrenas, de modo que não puderam chegar a Deus.

     

    A ALMA ANSIAVA POR DEUS

    A vontade central certamente ansiava por Deus, mas os bons pensamentos que haviam surgido em sua mente foram desviados, dispersados e destruídos, de modo que não puderam alcançar o poder de Deus.

    Diante disso, a pobre alma aterrorizou-se ainda mais e começou a orar com mais veemência ainda. Porém, o diabo apossou-se da alma – a roda ígnea da vida, a roda mercurial, incandescida pelo desejo – e nela despertou as propriedades do mal, de modo que as falsas e más inclinações ressurgiram na alma e dirigiam-se às coisas nas quais ela tivera mais prazer e deleite.

    A pobre alma queria sinceramente dirigir-se a Deus com sua vontade e, para isso, empregou todos os meios; mas seus pensamentos desviavam-se continuamente de Deus em direção às coisas terrenas e não conseguiam voltar-se para Ele. A alma suspirou e se lamentou perante Deus; mas era como se ele a houvesse abandonado complemente, expulsando-a de sua presença. Ela não podia obter sequer um vislumbre de sua graça. Em contrapartida, encontrava-se em angústia, medo e terror ante a possibilidade da cólera e do severo juízo de Deus, e temia que o diabo viesse a apoderar-se dela. Caiu, assim, em tal abatimento e miséria, que se fartou de todas as coisas temporais que antes haviam sido seu principal gozo e felicidade.

    A vontade terrena e natural certamente ainda desejava essas coisas, mas a alma alegremente abandonaria a todas elas, desejando morrer para todo desejo e gozo temporais, ansiando apenas pelo lugar do qual proviera originalmente. Viu que estava longe de sua terra natal; sentiu-se transtornada e necessitada, e não soube o que fazer; contudo, decidiu entrar em si própria e orar mais diligentemente ainda.

     

    A OPOSIÇÃO DO DIABO

    Porém, o diabo opôs-se a isso e a impediu, de modo que ela não pôde alcançar maior fervor de arrependimento. As concupiscências terrenas, com sua natureza maligna e falsa retidão, despertaram e permaneceram em seu coração, resistindo à vontade e ao desejo recém-nascido da alma, pois não queriam morrer para sua própria vontade e luz, queriam conservar seus prazeres temporais, e para isso mantinham a alma imóvel e presa aos seus desejos malignos, embora ela suspirasse e ansiasse mais que nunca pela Graça de Deus.

    Sempre que a alma orava e se dirigia a Deus, as concupiscências da carne tragavam os raios que nela surgiram, afastando-os de Deus e dirigindo-os aos pensamentos terrenos, de modo que ela não pôde participar da fortaleza divina. A alma considerou-se abandonada por Deus, sem saber que, não obstante, Ele estava muito perto e atraindo-a para Si.

    Então o diabo aproximou-se, penetrou o mercúrio ígneo da alma – a roda ígnea de sua vida – e, mesclando seus desejos às concupiscência terrenas da carne, tentou a pobre alma, sussurrando-lhe em seus pensamentos terrenos: “Por que oras? Porventura acreditas que Deus te conhece ou te considera? Observa teus pensamentos quando estás diante d’Ele. Acaso não são totalmente perversos? Não tens fé em Deus, nem crês n’Ele! Por que havia de escutar-te? Ele não te escuta, desengana-te! Por que atormentas e maltratas a ti mesma, sem necessidade? Tens tempo de sobra para arrepender-te quando quiseres.

    “Estás louca? Olha um pouco para o mundo, vê como vive em júbilo e regozijo. E não obstante será salvo, pois Cristo pagou o resgate e redimiu a todos os homens. Só precisas crer que o fez também para ti.

    Consola-te e estarás salva. O mais provável é que neste mundo não chegues a sentir e conhecer a Deus.

    Por isso desengana-te; cuida de teu corpo e da glória temporal.

    O que pensas que ocorrerá contigo se te tornas tão estúpida e melancólica? Serás motivo de escárnio e todos se rirão de tua loucura. Passarás teus dias apenas em lamentações e abatimento, o que não agrada a Deus nem à natureza. Olha a beleza do mundo, pois Deus te criou e te colocou nele para que sejas como todas as criaturas e as governe. Aceita e apanha agora as coisas do mundo, para que, no futuro, não precises mais dele, e para não seres motivo de escândalo. Tens tempo. Espera a velhice e a aproximação do fim, e então prepara-te para o arrependimento. Deus te salvará nas mansões celestiais. Não há necessidade alguma de tais tormentos, aborrecimentos e desgosto, como te impões”.

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